10 de junho de 2004

O Mendigo

" Ando nisto há muito tempo...
Estou deitado ao sabor do relento, como sempre...
Esta noite ocuparam o meu canto. Tive de andar à procura de outro banco para me abrigar do frio. E que frio... Está mesmo um gelo. Azar dos azares cheira aqui a urina até dizer basta. É quase insuportável sentir este cheiro. Tentei ir ao café aqui perto pedir água com lexívia para desinfectar esta merda. Olharam-me de lado e não ouviram sequer o que eu tinha para dizer. Nem sei porque é que tive a ilusão de lá ir... o meu corpo está mais enfermo e sujo do que qualquer banco velho. Mas está porque escolhi assim. Porque me entreguei a este estado. Porque me habituei a ele. É mais difícil às vezes. Sobretudo pela maneira como as pessoas me olham, sem saber sequer quem eu sou. Acredito que o meu aspecto não é nada simpático. Tenho merda acumulada até às entranhas. Quem passa por mim sente logo a minha presença. Mas uma coisa sou eu, outra coisa é o meu abrigo. E urina retardada é o cheiro mais insopurtável que existe. Acreditem em mim, eu sei bem o que estou a dizer. Conheço os cantos todos a Lisboa. E não imaginam o número de mendigos sem abrigo que existem. Eu considero-me um privilegiado. Pelo menos tenho o meu banco há muito tempo. Quer dizer, já nem sei. Hoje está lá um caixote enorme. Acho que vai haver um festival qualquer de música rock... Barulho... enfim, lá se vai o meu sossego.
Já se devem ter perguntado o que é que eu quis dizer quando afirmei ter escolhido ser mendigo. Não ?
Por mais estranho que pareça, ou não, muitos daqueles que vocês veêm com merda entranhada nas orelhas, com uma tez escura tão empregnada de surro que nem 10 banhos de lexívia íam chegar, etc ( para não vos deixar indispostos ); muitos deles são mendigos por opção. Porque a vida os esbofeteou de tal forma que escolheram dizer não. De uma forma cobarde, pensa muita gente. Mas não será também um acto de coragem ir para as ruas, passar frio e fome, ser desprezado, temido, ignorado?
Querem saber o que me aconteceu? Porque é que escolhi desistir?
Tive uma infância rica e repleta de amor. Morava em Cascais com os meus pais e mais dois irmãos. O meu pai era e é um empresário de sucesso, no ramo imobiliário. A minha mãe morreu quando eu estava a terminar o curso de Engenharia Civil. Eu assisti. Assisti à sua morte e trago ainda todas as imagens comigo. Um dia, vindo da faculdade, contrariamente ao que é habitual ( tinha por hábito ir ao quiosque comprar o jornal ) fui directo a casa. Abri a porta, pousei a pasta e o casaco, subi a escada ( vivíamos numa moradia com r/c e 1º andar ) e quando subo começo a ouvir gemidos. Gemidos de dor, de sofrimento. Comecei a correr procurando saber o que se estava a passar. Fui dar com a minha mãe ensaguentada, deitada na cama, nua, branca. O meu pai,sentado na cadeira ainda segurava o cinto com as mãos serradas contra o peito. No seu olhar vi um ódio que nunca tinha visto antes. Ele era um homem duro mas um bom pai e um marido ainda melhor. Perguntei o que se estava a passar, corri para a minha mãe e o meu pai levantou-se de repente e desata a bater em mim com uma fúria desalmada. Como se bater fosse a única coisa que poderia dar-lhe gozo. Um estranho gozo. Os olhos da minha mãe estavam tão arregalados que não consegui fazer outra coisa senão olhar para eles. Não me consegui defender do meu pai. Sou fraco, tinha-lhe respeito, não entendia o que se estava a passar. Gritei várias vezes para que le parasse mas ele continuava. Até que se cansou. Parou. Olhou-nos aos dois com nojo, com repugnância. Estava fora de si e deixou-me completamente partido. Minutos depois chega a ambulância que já havia chamado, levou-me a mim e à minha mãe. Chegados ao Hospital somos separados. Cada um para a sua sala. Adormeço, de cansado que estava. Acordo horas depois com um sorriso simpático da enfermeira a dizer : " Ai que dorminhoco, vamos levantar e comer qualquer coisinha, sim? ". Levanto-me ainda com estranheza. Vem um médico e senta-se ao meu lado com cara de caso. Pergunto pela minha mãe. Diz-me: " A sua mãe morreu. ".
Assim, com esta mesma frontalidade e frieza. Levanta-se, diz um "lamento" baixinho e desaparece da sala. Fiquei anestesiado.
Anos mais tarde vim a saber pelo meu irmão ( com quem nunca tive grande relação, nem mesmo com o outro ) que aquela disputa foi por minha causa. Porque eu não era filho daquele que considerei um pai até àquele dia. Ele ficou impune, em Portugal facilmente o dinheiro compra a justiça.
Desde o dia que saí do hospital sem aquela mulher loira, de olhos azuis, lindos, que sempre me deu tanto carinho, amor, dedicação tudo mudou dentro de mim. Desde esse dia que ando nas ruas. Não senti mais vontade de voltar para casa. Afinal só pertencia a ela.
Trago comigo as imagens de dor, de sofrimento, de angústia, dos olhos arregalados de choque e de dor.
Sou mendigo por opção, por isso não tenham pena de mim. Só não me cuspam em cima. Mereço esse respeito. E escolhi. Esta é a minha escolha. A de não pertencer nem a sítio algum nem a ningém. Um mendigo de Lisboa com um banco limpo de um jardim qualquer... "


T.

Sem comentários: